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A Vila em Ricas Festas: celebrações promovidas pela câmara de Vila Rica (1711 - 1744)

Autor: Camila Fernanda G. Santiago

Editora: C/ Arte

111_G.jpg"Camila Fernanda Guimarães Santiago, em A Vila em Ricas festas: celebrações promovidas pela Câmara de Vila Rica (1711-1744), fornece ao leitor estudo bastante verticalizado sobre cerimônias oficiais, de incumbência do Senado da Câmara, com destaque para a mais solene, isto é, o Corpus Christi. Trata-se inicialmente de dissertação que documenta e analisa, a partir de profundo conhecimento das fontes arquivísticas coloniais e da bibliografia nacional e estrangeira, solenidades que foram tratadas superficialmente pelo musicólogo Francisco Curt Lange, cujo objetivo maior foi mapear as funções religiosas com vistas ao levantamento da produção musical e seus autores nas Minas Coloniais.

Camila Santiago considera as festas oficiais pelo seu avesso, isto é, como elas foram organizadas, os bastidores (enquanto duração e atividades), que vão desde a convocação, exigindo legalmente que fossem feitas pelo Senado, os preparativos, o pagamento posterior das despesas em geral (iluminação, reparos e consertos de andores e imagens, armações efêmeras, encomendação de sermões e música etc.) e, particularmente, das propinas específicas das autoridades municipais que saíam no cortejo. As propinas podem ser comparadas, com o devido respeito ao tempo, ao jetom que um político ou intelectual recebe para participar de plenárias e comissões. O recebimento de tais propinas para participar dos festejos promovidos pela Câmara era legal, em momento nenhum deveria causar constrangimento. Contudo, o abuso dessa prerrogativa foi comum, motivando freqüentes desvios dos magistrados e interdições (glosas) pelas autoridades competentes. Essa particularidade vilarriquenha foi minuciosamente analisada nesta obra. Na longínqua Capitania das Minas, o Corpus Christi serviu para conferir identidade cultural e social às elites burocráticas, grupo que, além disso, sabia manipular, pois viu no evento um meio de se promover individualmente. Observa-se que o itinerário da autora é inverso àquele explicitado por Affonso Ávila em Resíduos seiscentistas em Minas (1967), autor cuja produção intelectual Camila Santiago conhece bem. O ensaísta considera a expressão festiva em si, isto é, a festa inscrita no tempo cronológico e em suas mediações com o tempo sagrado para o qual ela se abre, a partir de três categorias bastante difundidas por seus seguidores, a saber: o lúdico, o persuasório e a ênfase visual. Ávila destaca o gosto inveterado pelas aparências e pela beleza material na cultura barroca.

Camila Santiago, por sua vez, reconstitui os aspectos temporais da festa, manifestados através de sua delongada e custosa preparação e nos embates políticos dela decorrentes, boa parte motivados por interesses pecuniários, de prestígio ou de ambos. Com efeito, é com gosto que destacamos o valor deste texto, seja no que diz respeito ao trabalho exaustivo de investigação de fonte exigente e árida (Rol de Despesas do Senado da Câmara) que o fundamenta, seja no caráter inédito da abordagem historiográfica, pelo menos no Brasil. No domínio internacional, em Os reis taumaturgos (1924), Marc Bloch quantificou e analisou pioneiramente os lançamentos contábeis das realezas inglesa e francesa, destacando os gastos com e na preparação do rito de toque das escrófulas.

Desde 1996, acompanho o crescimento acadêmico de Camila. Foi um privilégio tê-la como aluna na graduação, monitora na disciplina História da Arte, bolsista de iniciação científica no Projeto Pompa Barroca e Semana Santa na Cultura Colonial Mineira (CNPq), e, finalmente, como orientada no Programa de Pós-Graduação da História/UFMG. Nela destacava-se dia a dia uma paciência ativa, meticulosa, aliada ao pendor pela investigação científica com fontes manuscritas. Anos de convívio e cotidiano me exigiram vigilância para respeitar suas escolhas. Nesta obra convinha relativizar a imagem de festa construída a partir de listas contábeis. O texto, muito denso e criterioso, mostra uma cerimônia de burocratas: sem diversão, sem ócio, carente de cultura artística e da própria experiência lúdica do sagrado. A Eucaristia não é somente o sacramento principal do catolicismo pós-tridentino, mas a devoção maior na vivência cultual do Barroco, época pródiga nos dispêndios com celebrações de missa em geral, para confortar e dar esperanças aos vivos e às almas dos purgatório. A estrondosa popularidade da devoção ao Corpo de Cristo é fartamente documentada no plano individual a partir dos testamentos e social através dos livros de despesas e de lançamento de missas e do admirável surto construtivo de capelas e matrizes, bem como do acervo de objetos voltados à liturgia eucarística.

É gratificante constatar que Camila se afirma na vida intelectual, com coragem e critério, assumindo um tipo de investigação bastante difícil, que não é contemplado pelos modismos afeitos ao barulhento e ao escandaloso. Trata-se de obra essencial ao estudo da cultura, vida social, política e administrativa no período colonial."