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Autor: Roberto Patrus Mundim Pena

Editora: C/ Arte

116_G.jpg"Este livro reúne o trabalho de investigação e dois artigos realizados durante o meu Doutorado em Filosofia, pela Universidad Complutense de Madrid. O trabalho de investigação é uma das exigências parciais para se obter o título de Doutor. O trabalho foi orientado pela Professora Doutora Ana Rioja, com quem aprendi que escrever um texto acadêmico não é simplesmente resumir as idéias de um autor, mas repensá-las a partir de um viés próprio, pessoal, original. Escrever se toma uma atividade difícil quando não temos este norte pessoal com o qual confrontaremos a idéia de um autor pesquisado. Quando o temos, cresce a possibilidade de criação de um texto original que agregue conhecimento e valor para aqueles que o lêem.

O livro tem três partes, que podem ser lidas independentemente, mas que se complementam mutuamente. A primeira parte, ""A ciência como jogo"", explora o pensamento de Thomas Kuhn e busca propor uma múltipla definição do termo paradigma, de modo a oferecer um instrumento de análise de modelos ou teorias diferentes. Num momento em que os modelos surgem como modismos, com duração semelhante à moda de uma estação, é importante estar atento não só às mudanças, mas também àquilo que permanece. Na era da informação, fala-se muito em velocidade das mudanças. Talvez seja a hora de se pensar no que continua sendo como antes, mesmo que se fale em revolução. A revolução é sempre uma ruptura, mas é só ruptura? Proponho que pode existir continuidade, mesmo nas revoluções científicas. Para demonstrar essa idéia, incompatível com a metáfora do quebra-cabeça, feita por Kuhn, proponho uma nova analogia: o Tangran, puzzle chinês, composto de apenas sete peças, com as quais se pode montar uma infinidade de formas.

A segunda parte discute as concepções de ciência em Aristóteles e em Descartes. Considero este texto importante para entender a transição de uma concepção contemplativa do mundo para uma concepção mecanicista do mundo. Penso que este é um mérito da Filosofia: sua reflexão permite a compreensão do que acontece em outros campos do saber. Quando se fala que o time de futebol jogou como uma máquina ou que a empresa pode ser comparada a uma máquina, quase sempre não se tem noção das implicações filosóficas dessas proposições. O mecanicismo de Descartes e sua compreensão de universo proporcionam oportunidade de compreender a importância que o mundo moderno tem dado às relações de causalidade na sua forma de interpretar e conhecer o mundo. Entretanto, a analogia do mundo fabricado com o relógio mecânico é uma abstração que pode impedir o ser humano de contemplar o mundo tendo a si mesmo como referência. As horas modernas, de 60 minutos, em oposição às horas temporárias marcadas pelo r elógio de sol, fazem do tempo uma abstração que condiciona o ser humano, como se não fossem apenas uma forma que o homem inventou para simplesmente medir o tempo. Não é possível voltar à concepção aristotélica de natureza, muito menos ao uso do relógio de sol. Entretanto, não podemos ficar presos a uma concepção mecanicista que transforma o tempo em uma entidade autônoma sobre a qual não temos poder, sob o risco de todos adoecerem de estresse, a doença do tempo.

A terceira parte traz o artigo intitulado "Verdade e felicidade: é possível ser feliz?". Trata-se de Um texto que discute a possibilidade da vida feliz, partindo da premissa de que o conhecimento verdadeiro da realidade é condição necessária para a realização pessoal. Partindo da concepção de verdade inferida em autores como Platão, Maquiavel, Descartes e os herdeiros da concepção fenomênica, o texto é apenas um exercício da atividade reflexiva, que mostra, entre outras coisas, como a compreensão do mundo e da verdade mudaram a partir do que Kant denominou de revolução copernicana do conhecimento.

É importante ressaltar que este trabalho só foi possível por uma infinidade de contribuições que recebi desde o início do curso de Doutorado. Agradeço a brilhante iniciativa da FACE-FUMEC, nas pessoas dos seus diretores Antônio Eugênio de Salles Coelho, Maria da Conceição Rocha e Dimas de MeIo Brás, ao possibilitar que essas reflexões cheguem àqueles que se interessam por Filosofia da Ciência e Ética. Do ponto de vista material, agradeço à FACE-FUMEC também pelo investimento feito em minha profissão, por meio do incentivo à formação docente. Do ponto de vista pedagógico, sou grato a cada um dos professores que me forneceram mais que informação. Possibilitaram-me conhecer outra cultura, refletir sobre meus pressupostos filosóficos, científicos e não científicos. Em especial, sou grato à Profa Ana Rioja, da Universidade Complutense de Madrid, que me conduziu no processo de elaboração deste trabalho com maestria e excelência, firmeza e atenção. Sua disponibilidade durante a orientação e as pertinentes contribuições, realizadas com sabedoria filosófica e sensibilidade pessoal, me encantaram. Ao Professor Andrés Rivadulla, vice-decano do Departamento de Filosofia da Universidad Complutense de Madrid, sou profundamente grato pela presteza com que se prontificou a ler o manuscrito e elaborar a apresentação do livro. Mais que professor e colega, Andrés tem sido um grande amigo, a quem devo a ampliação da minha percepção do mundo para uma compreensão cosmopolita dos problemas da humanidade. Pelo apoio psicológico e compreensão, sou agradecido à minha família, em especial à Thais, querida amiga, mulher e companheira. Obrigado a meu professor de espanhol, Atílio, pela disponibilidade e interesse e pela tradução deste trabalho para a língua portuguesa, uma vez que foi escrito originariamente em espanhol. Finalmente, sou agradecido a meus alunos pela oportunidade que me oferecem de pensar em voz alta e dialogar em sala de aula. Enfim, obrigado a meus pais, minha origem mais próxima, expressão da origem mais remota, Deus, para quem jamais conseguirei demonstrar o tamanho da minha gratidão."